Desde 2017, a Rede de Sementes do Cerrado (RSC) atua na comercialização de sementes nativas de base comunitária, estabelecendo um elo direto entre quem coleta e quem restaura. Ao longo desse período, estruturamos um modelo de articulação entre grupos comunitários, restauradores e parceiros institucionais, contribuindo para fortalecer a cadeia produtiva das sementes nativas e ampliar o uso dessas espécies em projetos de restauração ecológica no Cerrado. Essa atuação também esteve orientada pela promoção do comércio justo, pela valorização dos territórios e pelo reconhecimento do papel das comunidades na conservação da sociobiodiversidade.
A experiência acumulada ao longo desses anos trouxe aprendizados importantes sobre organização da produção, planejamento das coletas, logística, diversidade de espécies e funcionamento do mercado de restauração. Esses aprendizados contribuíram para consolidar capacidades técnicas e organizativas nos grupos comunitários envolvidos na coleta e no beneficiamento de sementes nativas.
Atualmente, a Rede de Sementes do Cerrado está conduzindo uma transição gradual nesse modelo de comercialização, prevista para ocorrer até o final de 2026. Ao longo desse período, a RSC reduzirá progressivamente sua atuação direta nas vendas de sementes, transferindo o protagonismo dessa atividade para os próprios grupos comunitários. Com base nos aprendizados acumulados, passamos a concentrar nossos esforços no fortalecimento institucional, na formação e na profissionalização desses grupos, para que possam atuar com cada vez mais autonomia na gestão da produção, na organização logística e na relação direta com compradores e projetos de restauração.
Encomendas antecipadas e entrega das sementes
A comercialização atualmente ocorre por meio de encomendas antecipadas e planejadas, que permitem maior diversidade e volume de espécies, e também por pronta entrega, quando há disponibilidade em estoque. As encomendas geralmente são realizadas entre os meses de janeiro e junho, período que possibilita aos grupos de coletores se organizarem para a coleta e o beneficiamento das espécies solicitadas. A entrega das sementes ocorre em dois momentos: os capins e alguns arbustos a partir da segunda quinzena de setembro, e as espécies arbóreas e arbustivas a partir da segunda quinzena de novembro.
Legado RSC
Atuando especialmente na região da Chapada dos Veadeiros, em parceria com a Associação Cerrado de Pé (ACP), estruturamos a cadeia produtiva local com foco na formação, no fortalecimento e na capacitação de grupos de coleta. Desde o início dessa atuação, mais de 250 coletores foram capacitados em 25 comunidades, e hoje mais de 200 famílias participam da atividade — em sua maioria mulheres, que encontram na coleta de sementes uma importante oportunidade de geração de renda associada à conservação do Cerrado.
Entre 2017 e 2025, a Rede de Sementes do Cerrado, em parceria com a ACP, comercializou cerca de 90 toneladas de sementes de 146 espécies diferentes, movimentando quase R$5 milhões repassados diretamente aos grupos comunitários. Esses resultados expressam não apenas a consolidação de um modelo de restauração baseado em sementes nativas, mas também a força de uma rede que promove inclusão social, fortalece comunidades e contribui para manter o Cerrado vivo e diverso.
A partir de 2026, a comercialização de sementes nativas passará a ser realizada diretamente pelos grupos comunitários, fortalecendo o protagonismo das coletoras e coletores que atuam nos territórios.
A Rede de Sementes do Cerrado seguirá atuando no apoio técnico, na formação, na articulação institucional e no fortalecimento da cadeia da restauração, contribuindo para que esses grupos ampliem sua autonomia e consolidem relações diretas com restauradores, proprietários rurais e projetos de restauração ecológica.