SOBRE 2026: Dia de Campo aproxima participantes de experiências de restauração ecológica no Cerrado
Pesquisadores, estudantes, restauradores, coletores de sementes e representantes de organizações socioambientais vivenciaram, neste domingo (26), experiências que mostram como a restauração ecológica pode caminhar lado a lado com a agricultura familiar, a produção de alimentos e a organização comunitária. A programação de campo da VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE 2026), promovida pela Rede de Sementes do Cerrado (RSC), apresentou iniciativas que transformam a recuperação ambiental em oportunidade de geração de renda, fortalecimento dos territórios e conservação da biodiversidade.
A visita teve início no Assentamento Oziel Alves III, em Planaltina (DF), com uma recepção preparada pelo coletivo As do Cerrado, que produziram alimentos com ingredientes da sociobiodiversidade do Cerrado. Posteriormente o grupo conheceu um pouco mais sobre a Rede CORA, iniciativa voltada à coleta, beneficiamento, armazenamento e comercialização de sementes nativas do Cerrado.
Coordenador da Associação, Allf Lima explicou que o objetivo vai muito além de comercializar sementes para a restauração de áreas degradadas. “Estamos construindo uma rede organizada, que investe na formação dos coletores, na qualidade dos lotes e em processos cada vez mais transparentes. Queremos fortalecer a cadeia da restauração e criar novas oportunidades para as famílias que vivem no Oziel Alves III”, destacou.
Para Jefferson dos Santos, morador do Assentamento Oziel Alves III e coletor de sementes da Rede CORA, o Dia de Campo foi uma oportunidade de apresentar aos participantes como a restauração ecológica acontece na prática e de compartilhar a realidade das comunidades que atuam diretamente na conservação do Cerrado. “Receber os participantes da SOBRE aqui no assentamento foi uma forma de mostrar o trabalho desenvolvido pelas famílias do território. Apresentamos desde a coleta, o beneficiamento e o armazenamento das sementes até as áreas de restauração, além das ações de brigada de incêndio e de educação ambiental. É importante que as pessoas conheçam quem está na ponta desse processo e entendam que a restauração é construída coletivamente”, acrescentou.
SACEs e SAFs
À tarde, os participantes seguiram para o Instituto Federal de Brasília (IFB) – Campus Planaltina, onde conheceram experiências conduzidas pelo Núcleo de Estudos em Agroecologia (NEA Candombá), envolvendo compostagem, produção de bioinsumos, Sistemas Agrocerratenses (SACEs), Sistemas Agroflorestais (SAFs) e sistemas silvipastoris com regeneração de espécies nativas.
Professora de Agroecologia, Maria Dalva Trivelato, apresentou pesquisas sobre os microrganismos do solo e as associações entre fungos micorrízicos e as raízes das plantas, destacando que a restauração ecológica depende também da recuperação das relações biológicas do solo responsáveis pela fertilidade e pelo funcionamento dos ecossistemas. “Quando falamos em restauração, normalmente pensamos apenas na vegetação. Mas a recuperação começa no solo. São os microrganismos, os fungos e todas as interações biológicas que devolvem fertilidade, promovem a ciclagem de nutrientes e permitem que as plantas se estabeleçam. Restaurar é reconstruir essas relações ecológicas”, explicou.
Acadêmica de Agroecologia do Instituto Federal de Brasília, Amanda Raissa Feitosa afirmou que o Dia de Campo permitiu ampliar a compreensão sobre diferentes estratégias de restauração aplicadas no Cerrado. “Estar aqui amplia muito a nossa formação. Ver essas experiências acontecendo, conversar com quem executa a restauração e conhecer os desafios do território torna o aprendizado muito mais completo”, relatou.
Já a bióloga Juliana Rocha destacou a diversidade de experiências apresentadas ao longo da programação e a possibilidade de dialogar diretamente com quem atua na restauração. “O Dia de Campo mostrou que a restauração vai muito além do plantio. Conhecer as iniciativas das comunidades, a organização das redes de sementes e o trabalho desenvolvido pelos agricultores permite compreender toda a complexidade que existe por trás da recuperação dos ecossistemas. Foi uma oportunidade muito rica de aproximar a pesquisa das experiências práticas”, avaliou.
Para o supervisor de Restauração da Rede de Sementes do Cerrado (RSC), João Carlos Pereira, atividades como o Dia de Campo fortalecem a disseminação de tecnologias desenvolvidas para a restauração do Cerrado. “O Dia de Campo permitiu apresentar diferentes estratégias que fazem parte da restauração produtiva, desde a coleta e o beneficiamento de sementes até a aplicação da semeadura direta e dos Sistemas Agrocerratenses. Conhecer essas experiências em campo amplia a compreensão sobre como essas técnicas podem ser adaptadas e implementadas em diferentes territórios, fortalecendo a restauração ecológica em larga escala”, completou.
SOBRE 2026
O Dia de Campo integra a programação da VI Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE 2026), realizada na Universidade de Brasília (UnB). Com o tema “Inclusão e Justiça Climática”, o evento reunirá pesquisadores, estudantes, representantes de organizações da sociedade civil, gestores públicos, agricultores familiares, povos indígenas, comunidades tradicionais e restauradores para discutir estratégias que fortaleçam a restauração ecológica como instrumento de conservação da biodiversidade e geração de renda.