Restauração no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros: mais de 860 mudas plantadas em mutirões do projeto Plantando Caminhos da Água

Foram mais de 30 pessoas voluntárias — jovens, adultas, idosas e crianças — no mutirão de coleta de sementes nativas e mais de 50 participantes no mutirão de plantio. O esforço coletivo, entre os dias 11 e 12 de setembro, resultou no plantio de 862 mudas na Vereda dos Ingleses, no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. A ação fez parte do projeto “Plantando Caminhos da Água”, que é realizado pela Rede de Sementes do Cerrado (RSC) e integra o Programa Planeta Verde, do Instituto Alok, com apoio do Fundo Comunitário Airbnb.
Os mutirões foram promovidos pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por meio do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, e a Associação Cerrado de Pé, parceiros do projeto. O Viveiro Escola Instituto Caminho do Meio Alto Paraíso (ICMAP), que também integra a parceria, disponibilizou as mudas.
No mutirão de coleta, o principal objetivo era recolher sementes de landi, espécie adaptada a áreas úmidas. O landi produz frutos que servem de alimento para animais silvestres, como os morcegos. Por isso, seu uso na restauração ecológica favorece o desenvolvimento de um ecossistema mais equilibrado. Como ocorre em outras espécies de áreas úmidas, as sementes de landi são recalcitrantes. Isso significa que precisam ser coletadas bem próximo ao plantio porque não resistem a secas, não podendo ser armazenadas por longos períodos.
Assim, as sementes coletadas foram usadas no mutirão de plantio, no dia seguinte. Na Vereda dos Ingleses foram combinadas duas técnicas: a semeadura direta e o plantio de mudas. De modo geral, por haver uma predominância de áreas savânicas, a semeadura direta tem se mostrado mais eficiente no Cerrado. Mas, em virtude da recalcitrância das sementes de áreas úmidas, é necessário também utilizar mudas para garantir a variedade de espécies.
Com a participação ativa das crianças, foi preparada uma muvuca, que consiste na mistura de sementes de diversas espécies nativas — herbáceas, arbustivas e arbóreas — para o plantio direto na terra. Além disso, as 862 mudas implantadas incluíram espécies como buriti, buritirana, açaí, juçara e sangra d’água.
A Vereda dos Ingleses
O projeto “Plantando Caminhos da Água” contribui para a restauração de seis hectares da Vereda dos Ingleses. A área nunca foi desmatada. A degradação foi causada principalmente pelos sucessivos incêndios que atingiram o local. “Quando a GO-239 foi construída, interrompeu o fluxo de água da nascente do Rio dos Ingleses e deixou uma parte da vereda mais seca. Com isso, ela se tornou cada vez mais vulnerável aos incêndios, que têm se intensificado na região devido, entre outros fatores, às mudanças climáticas”, detalha a gestora do Núcleo de Restauração Inclusiva da RSC, Maria Eduarda Camargo.
Em 2017, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros sofreu o maior incêndio de sua história, que atingiu cerca de 25% da área total. A Vereda dos Ingleses foi profundamente impactada. De lá pra cá, novos eventos de fogo voltaram a degradar a área.
Nos últimos anos, a vereda vem recebendo ações de restauração e os resultados começam a aparecer. “Em algumas regiões, a gente já começa a perceber um pequeno leito de água correndo. A equipe até viu alguns peixinhos em áreas em que não se via há muitos anos”, acrescenta Maria Eduarda.
Segundo Maria Eduarda, é um trabalho árduo, feito passo a passo, e que ainda vai levar alguns anos. No âmbito do projeto Plantando Caminhos da Água, vem sendo realizado, desde o início do ano, o manejo de espécies exóticas, como os capins de origem africana. Elas precisam ser retiradas para que não entrem em competição com a vegetação nativa. Por se tratar de uma vereda, um ecossistema bastante sensível, o trabalho é feito manualmente.
“Antes, a gente nem conseguia entrar nessa área porque os capins estavam muito altos. Além das exóticas, outras espécies passaram a se comportar de forma oportunista por causa do desequilíbrio do ecossistema. E elas não deixavam a vegetação nativa retornar. Com os manejos, essas espécies diminuíram muito e já há um ambiente mais favorável para o desenvolvimento das mudas plantadas”, completa a Gestora de Restauração Inclusiva da RSC.
No total, o projeto Plantando Caminhos da Água prevê o plantio de duas mil mudas e pelo menos 150 kg de sementes nativas. Além disso, haverá continuidade das ações de manejo e monitoramento das espécies plantadas até o fim do ano.
“Esse projeto reúne alguns aspectos que valorizamos muito no Instituto Alok: meta de impacto relevante, parceiros com profundo conhecimento do território, uma comunidade protagonista e a participação também da iniciativa privada”, afirma Devam Bhaskar, presidente do Instituto Alok. “No campo, a Rede Sementes do Cerrado e a Associação Cerrado de Pé são importantes referências no cuidado com o bioma e na mobilização de coletores de sementes e voluntários. Participa também o Viveiro Escola, com papel estratégico na produção de mudas. Celebramos essa ação no Parque Nacional porque podemos sentir nossa contribuição para restaurar a Vereda dos Ingleses e assim ajudar a garantir água, vida e futuro a um dos territórios mais biodiversos do planeta”, ressalta.
Restauração Inclusiva
O projeto Plantando Caminhos da Água é desenvolvido a partir da articulação de diversos atores — organizações da sociedade civil, comunidade local, poder público e pessoas voluntárias. O modelo de governança adotado tem como premissa a Restauração Inclusiva, que tem as comunidades locais como protagonistas do processo.
“Quando se fala em restauração, se fala muito nas plantas e nos animais, mas essa é uma teia que também envolve as pessoas. A gente precisa de pessoas — sobretudo morando nos territórios e preservando-os — para que a gente tenha sementes, que são o insumo básico para a restauração”, afirma Anabele Gomes, Presidente da RSC.
A Restauração Inclusiva é uma das premissas de trabalho da Rede e o modelo vem sendo aprimorado a cada nova ação. Para Anabele, o projeto Plantando Caminhos da Água se desenvolve a partir de uma articulação muito importante de pessoas e instituições da Chapada dos Veadeiros, pioneiras nesse tipo de projeto. “A restauração do Cerrado, que hoje é reconhecida pela ONU como referência mundial, começou aqui no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e inspirou projetos em outras áreas”, ressalta a Presidente da Rede.
“Eu vejo a Restauração Inclusiva como o único jeito de se conservar e restaurar em grande escala. Se a gente não envolver as comunidades, a academia e outros parceiros em um trabalho conjunto, a gente não consegue restaurar em grande escala”, defende Claudomiro Cortes, Fundador e Diretor de Restauração da Associação Cerrado de Pé.
A ACP é uma das principais parceiras dos projetos da RSC, incluindo o Plantando Caminhos da Água. A Associação atua na conservação e restauração ecológica e reúne cerca de 240 coletores de sementes nativas, dos quais 78% são mulheres. Desde a fundação, em 2017, a ACP já coletou mais de 120 toneladas de sementes e atuou na restauração de mais de 160 hectares do Cerrado, gerando mais de R$ 5 milhões em renda para as pessoas associadas.
Educação ambiental
Além do plantio para a restauração da Vereda dos Ingleses, o projeto “Plantando Caminhos da Água” tem uma forte vertente de educação ambiental. Ao mobilizar pessoas voluntárias, turistas e toda a comunidade para participar dos mutirões, as ações também apontam para a conscientização sobre a necessidade de conservação do Cerrado.
“Muitas vezes as pessoas não reconhecem a importância do Cerrado como grande caixa d’água do Brasil. O Cerrado abastece aquíferos de todo o Brasil — oito das doze principais bacias hidrográficas do país nascem aqui. É um bioma muito importante e, infelizmente, muito negligenciado”, ressalta Janaina Coe, Coordenadora de Comunicação do Instituto Alok. “Por isso, a gente também enxerga nessa parceria um potencial muito grande de ‘furar bolhas’ e educar as pessoas sobre a importância do Cerrado”, complementa.
Nicole Monteiro, líder do Clube de Anfitriões Airbnb Brasília e Chapada dos Veadeiros, participou dos dois dias de mutirão. “O Airbnb tem buscado sensibilizar cada vez mais os anfitriões, principalmente aqui na Chapada, sobre a importância da sustentabilidade e da educação ambiental”, disse. “Foi muito especial coletar e plantar sementes junto com pessoas que acreditam no mesmo propósito. Estou orgulhosa e muito feliz de participar do projeto”, relatou.