Projeto Sementes do Cerrado: oficina no assentamento Oziel Alves III avança na implantação dos Sistemas Agrocerratenses

A beleza do ipê, a doçura das frutas, o poder terapêutico do barbatimão e os nutrientes das hortaliças. Imagine se a gente levasse tudo isso pra dentro do quintal, gerando conservação do Cerrado e renda para a família? Isso é o que o projeto “Sementes do Cerrado: caminhos para o fortalecimento da cadeia de restauração ecológica inclusiva nos corredores da biodiversidade“ tornará realidade para doze famílias do Assentamento Oziel Alves III, em Planaltina de Goiás.
Executado pela Rede de Sementes do Cerrado (RSC), com a parceria da Associação dos Produtores Agroecológicos do Alto São Bartolomeu (Aprospera) e do Núcleo de Estudos em Agroecologia Candombá do Instituto Federal de Brasília (NEA – Candombá), o projeto irá restaurar seis hectares de áreas no assentamento por meio dos Sistemas Agrocerratenses (SACE), que unem restauração ecológica e produção agrícola. Em vez de um modelo único, cada SACE terá um desenho próprio.
Para planejar a implantação dos sistemas, foi conduzida pela equipe da RSC e do NEA – Candombá, no fim de agosto, uma oficina com as famílias que receberão os SACEs. Esta etapa ocorre após as entrevistas iniciais, em que cada participante apresentou desejos e ideias para sua unidade.
Os SACEs combinam espécies nativas do Cerrado com espécies agrícolas e frutíferas de interesse das famílias, em arranjos que valorizam a biodiversidade, a segurança alimentar e a geração de renda. As escolhas envolvem memórias familiares, perspectivas de comercialização e preferências alimentares.
Na oficina, as famílias receberam a sistematização das conversas iniciais. Pequenos cartazes ilustraram os desejos e ideias expressados por cada família. A partir deles, em uma atividade de desenho cocriativo, os participantes começaram a elaborar os croquis de cada propriedade, avançando no detalhamento do que será implantando.
“Eu estou muito feliz. O que está nesse desenho é exatamente o meu sonho e também a minha realidade”, expressou a agricultora familiar Francisca Inês do Nascimento, ao receber o desenho inicial. “Eu estou indo pro meu oitavo SACE. As pessoas que não entendem o nosso trabalho querem saber porque a gente planta tanto pau. Eu respondo que estou plantando vida e ar puro e que o SACE é a minha aposentadoria. Quando eu estiver velhinha, vou estar comendo o fruto que plantei um dia e respirando com qualidade”, completou.
Restauração produtiva
“Eu escolhi muitos frutos do Cerrado. Nós colocamos araruta, jatobá, cajuzinho do cerrado, cagaita, baru, pequi. Nós, seres humanos, vamos ter que pedir licença às árvores para passar, de tão cheio que vai ficar”, disse o agricultor familiar Robemário Ribeiro de Souza, sobre as escolhas que fez para o SACE.
Robinho, como ele é conhecido, vende o que produz por meio de uma CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura), um modelo de parceria direta entre agricultores e consumidores. Nas CSAs, os consumidores tornam-se coagricultores, comprometendo-se a fazer parte da comunidade por um período mínimo de tempo, o que permite à família agricultora receber apoio financeiro fixo para os custos de produção. Em troca, os coagricultores recebem semanalmente cestas com os alimentos produzidos, respeitando sempre a sazonalidade das culturas. Para quem produz há mais previsibilidade e, para quem consome, comida fresca e de qualidade.
Robinho já produz por meio do SACE, mas parte da área foi danificada por um incêndio. Agora, o sistema será complementado. “Eu já tenho tudo mapeado na cabeça. Hoje fizemos o desenho de como queremos e eu pude colocar no papel o que estou imaginando para complementar o meu SACE. Está sendo bem legal porque a gente pode optar e falar sobre o que a gente quer na nossa área”, detalha.
Jefferson Santos é Técnico de Campo da Aprospera. Segundo ele, as famílias estão motivadas com o projeto. No assentamento, são desenvolvidas atividades produtivas e extrativistas. Os SACEs trazem para as famílias a possibilidade de aliar as duas frentes no próprio quintal. “A gente tem muitas mulheres na comunidade, por exemplo, que trabalham com frutos do Cerrado, como a cagaita. Com os SACEs, elas não vão precisar percorrer longas distâncias para coletá-los”, destaca.
Protagonismo da comunidade
Doze famílias assentadas serão contempladas com os SACEs no assentamento Oziel Alves III. Cada um deles terá meio hectare. “A gente trabalha na Rede de Sementes do Cerrado com a Restauração Inclusiva, em que as comunidades são as próprias restauradoras. Desde o diagnóstico, passando pelo planejamento, até o monitoramento, elas estão no centro do processo”, explica Maria Eduarda Camargo, gestora do Núcleo de Restauração Inclusiva da RSC.
“Estamos há cerca de um ano construindo com as famílias. É muito satisfatório ver a reação dos participantes ao receberem o mapa visual do que eles mesmos escolheram. Nós acreditamos que conservação e desenvolvimento caminham juntos quando as comunidades participam dos processos, gerando pertencimento”, detalha Maria Eduarda.
Bacia do Pipiripau
Reconhecido pela trajetória de resistência e inovação na agricultura familiar, o Assentamento Oziel Alves III está localizado na bacia do Ribeirão Pipiripau, área considerada estratégica para o abastecimento de água do Distrito Federal e reconhecida pela Unesco por sua alta vulnerabilidade hídrica. A restauração dessas áreas contribui diretamente para a proteção dos recursos hídricos, ao mesmo tempo em que fortalece sistemas produtivos.
Com a implantação dos SACEs, o projeto Sementes do Cerrado avança na construção de uma cadeia de restauração ecológica inclusiva, que valoriza os saberes locais, fortalece a agricultura familiar e reafirma o papel das comunidades como protagonistas na conservação do Cerrado.
O projeto Sementes do Cerrado é financiado pelo Edital Corredores da Biodiversidade da Iniciativa Floresta Viva, promovida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A iniciativa tem como objetivo apoiar projetos de restauração ecológica em diferentes biomas brasileiros, contando com o apoio da Petrobras e do FUNBIO como parceiro gestor.





