
Há lugares no Cerrado onde a água não corre apressada. Ela brota silenciosamente do solo encharcado, infiltra-se entre capins, arbustos e buritis, alimentando nascentes que darão origem a córregos, rios e bacias hidrográficas de grande parte do Brasil. Esses lugares são as veredas, ecossistemas únicos que funcionam como caixas d’água naturais do bioma.
É justamente para contribuir com a conservação desses ambientes que a Rede de Sementes do Cerrado (RSC) e o Instituto Alok estabeleceram uma parceria para desenvolver o projeto “Plantando Caminhos da Água”, que vai contribuir para a restauração de seis hectares da Vereda dos Ingleses, no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO).
Somam-se à parceria a Associação Cerrado de Pé (ACP), o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV), e o Viveiro Escola Instituto Caminho do Meio Alto Paraíso (ICMAP).
O projeto integra o programa Planeta Verde, do Instituto Alok, com apoio do Fundo Comunitário Airbnb.
As veredas
Muito além da paisagem marcada pelos buritis, as veredas são responsáveis por armazenar água durante o período chuvoso e liberá-la lentamente ao longo dos meses de seca. Esse funcionamento mantém nascentes vivas, abastece cursos d’água e sustenta uma enorme diversidade de plantas e animais adaptados às condições de solo permanentemente úmido.
Embora ocupem uma pequena parcela do Cerrado, é nas veredas que muitos rios encontram sua origem. Quando esses ambientes são degradados pelos incêndios, avanço de espécies exóticas, pisoteio, drenagem ou uso inadequado do solo, toda a dinâmica da água é comprometida. As nascentes diminuem de vazão, o solo perde capacidade de infiltração, se torna seco e inflamável e a biodiversidade desaparece gradualmente.
Segundo a Gestora de Restauração da RSC, Maria Eduarda Camargo, restaurar uma vereda exige compreender como esse ecossistema funciona antes mesmo de pensar no plantio. “As veredas funcionam como verdadeiras reguladoras da água na paisagem. Elas armazenam parte da água das chuvas, favorecem a infiltração no solo e liberam essa água lentamente ao longo do ano, garantindo a manutenção das nascentes e o abastecimento dos cursos d’água, inclusive durante a estação seca”, explica.
Mobilização comunitária
A iniciativa combina restauração ecológica, fortalecimento da cadeia de sementes nativas, mobilização comunitária e educação ambiental.
Para Devam Bhaskar, diretor do Instituto Alok, “mais do que recuperar uma nascente, o projeto busca fortalecer a relação entre pessoas, território e água. Conservar as veredas é garantir o futuro dos rios que nascem no Cerrado e gerar oportunidade de trabalho e renda para a comunidade”, destaca.
As ações envolvem a Associação Cerrado de Pé (ACP), formada por cerca de 240 coletores e coletoras de sementes nativas, aproximadamente 77% mulheres e 80% quilombolas Kalunga. A coleta de sementes, a produção de mudas e as atividades de restauração geram renda, valorizam conhecimentos tradicionais e ampliam a participação das comunidades na conservação do Cerrado.
Para Claudomiro Cortes, da ACP, a restauração começa muito antes do plantio. “Ela começa na coleta das sementes, no conhecimento que as comunidades têm sobre cada espécie e no cuidado com o território. Participar de um projeto como esse fortalece nossa associação e mostra que as comunidades tradicionais têm um papel fundamental na recuperação do Cerrado “, reforça.

Mais que plantar árvores
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, recuperar uma vereda não significa simplesmente plantar árvores. Grande parte da vegetação responsável pelo funcionamento desse ambiente está rente ao solo e ao redor da vereda. “As veredas são ambientes complexos. Quando falamos em uma vereda, é comum pensar apenas na faixa mais úmida, onde há água durante grande parte do ano e a presença marcante dos buritis e de outras árvores. Mas a vereda vai muito além desse trecho, inclui também os campos úmidos do seu entorno, que são fundamentais para o funcionamento de todo o ecossistema. Cada um desses ambientes possui espécies adaptadas às suas condições e que exercem funções complementares. Para além das árvores que compõem o canal principal da vereda, a vegetação rasteira dos campos úmidos, formada por gramíneas, ervas e outras espécies adaptadas aos solos úmidos, desempenha um papel essencial na estabilização do solo, na redução dos processos erosivos, na infiltração da água e na manutenção do equilíbrio ecológico de todo o sistema”, explica Maria Eduarda Camargo.
Essa característica torna a restauração das veredas diferente da recuperação de outros ambientes do Cerrado. Antes de iniciar as atividades de restauração, é necessário controlar espécies invasoras, compreender o regime hídrico local e selecionar plantas adaptadas às condições específicas de cada área. “Não existe uma receita pronta para restaurar uma vereda. Cada ambiente possui uma dinâmica própria. Nosso objetivo é recuperar os processos ecológicos que permitem que ela continue armazenando água, sustentando a biodiversidade e cumprindo seu papel na paisagem”, completa a gestora.
Ao longo da execução serão promovidos mutirões de coleta de sementes, produção de mudas, plantios participativos, monitoramento das áreas restauradas e ações de educação ambiental.
Fotos: Milla Petrillo
Ficha técnica
Projeto:
Plantando Caminhos das Águas
Realização:
Rede de Sementes do Cerrado
Parceria:
Instituto Alok (Programa Planeta Verde, com apoio do Fundo Comunitário Airbnb)
Execução:
Rede de Sementes do Cerrado
Associação Cerrado de Pé
ICMBio – Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros
Viveiro-Escola – Instituto Caminho do Meio Alto Paraíso (ICMAP)
Comunidades locais, coletores de sementes, brigadistas e voluntários